Sentei-me numa cadeira. Estava cansada. Tinha andado tanto... o que mais queria era fugir... esquecer. Porém, antes de mais, tinha de pensar. Estava uma tarde quente. Talvez por esse motivo tivesse escolhido nessa manhã aquele vestido em tons de verde. O sol incidia sobre minhas pernas. Uma leve brisa passava por entre a verde folhagem das árvores que se erguiam por detrás de mim. Alguns pardais saltitavam à minha frente esvoaçando a cada movimento mais brusco que fizesse. Meus pés latejavam, quentes, cansados; reclamavam, de dentro das sandálias brancas, por uns minutos de descanso. Pessoas caminhavam, passavam à minha frente. Umas calmas, de mãos dadas com a sua paz de espírito; outras, perseguiam, sem sucesso, o tempo que se recusa a parar ou sequer abrandar. Ali estava eu sentada, rodeada por tudo aquilo.
Reflecti sobre o que acontecera. Revivi na minha mente vezes sem conta cada movimento, cada expressão, cada palavra, certificando-me que realmente acontecera. Quis desabafar com alguém. Quis contar, falar, dizer... mas a quem? Não, ninguém iria ficar a saber. Não tinha coragem de o contar. Fazê-lo seria admitir que tinha acontecido, seria testemunhar algo que para mim não tinha ocorrido, não podia ter ocorrido. Pela primeira vez tinha medo que olhassem para mim e me vissem, que olhassem através de mim e soubessem. Definitivamente, ninguém iria ficar a saber. Ninguém para além de mim... de nós os dois. Para ser franca nunca realmente conseguira guardar segredos de ti.
O empregado aproximou-se de mim interrompendo os meus pensamentos. Tencionava pedir um copo de sumo de maçã, no entanto com a pressa esquecera a carteira e acabei por desistir. Levantei-me e de novo comecei a pensar. De novo deixei o destino traçar o meu rumo que, num futuro próximo, me levaria a casa. Ao chegar, parei diante da porta e constatei que o meu pai não estava. Só então entrei. Fui directa à cozinha. Olhei em redor e não encontrei o que procurava. Desisti. Subi para o meu quarto encostando a porta sem no entanto a fechar.
Deitada sobre a cama fitava um ponto deserto na parede. Percorriam o meu pensamento inúmeras perguntas às quais não pretendia responder. Respirei fundo. Deixei uma única lágrima escorrer-me pela face e ser absorvida pela colcha roxa sobreposta na minha cama. Fechei os olhos. Tentei muito não pensar, mas como seria de esperar foi em vão. Estava calma. Demasiado para o que julgava normal numa situação destas.
Fitei o tecto até a luz que entrava pelas janelas não ser suficiente para ver. Nesse momento fechei os olhos. Ouvi sons que formavam uma estranha melodia de fundo. A minha mãe chegara a casa. Senti abandonar-me. Estava cada vez mais longe de tudo, incluindo de mim. Tive a sensação de ver o meu corpo deitado sobre a minha cama, abandonado, inerte, apático, imóvel. Sorri. Senti paz, senti-me feliz, senti-me bonita. Deixara de ser o meu corpo. Agora era apenas eu. O sorriso esmoreceu. Comecei a reflectir sobre como seria se fosse sempre assim... poderia a morte provocar esta sensação para uma eternidade tendencial?
Censurei de imediato o meu pensamento. Bani-o de mim. Ignorei a sua existência como se me fosse impossível comprovar ou mesmo improvável ter passado, ainda que por breves instantes, pela minha mente. Uma certa confusão originou-se em mim. Fui penetrando inconscientemente no meu inconsciente. Entrei em harmonia comigo mesma.
O leve som provocado por baterem à porta quebrou o momento. Mesmo tendo a porta apenas encostada a minha mãe sentiu necessidade de bater antes de entrar. Antes de se dirigir a mim olhou em volta. Observou rapidamente o ambiente no qual passava a maioria das minhas horas. Não se atreveu a fazer comentários. Apenas perguntou se estava tudo bem. Disse-lhe que estava com dores de cabeça, que queria descansar um pouco. Dorme, disse-me ela num tom maternal, tom que desconhecia que tivesse. Rapidamente saiu e não voltou mais.
Despi-me. Não me dei ao trabalho de me vestir, apenas me deitei. Lembrei-me daquilo que mais queria esquecer. Não o pude evitar, foi-me impossível. As lágrimas caíram umas atrás das outras. Não tive força para tentar pará-las. Fui invadida por um desespero cuja existência desconhecia. Nunca me tinha sentido tão impotente como nessa tarde. O engraçado é que só nessa noite me apercebi que perante certas situações a reacção é retardada. Respirei fundo e deixei a dor sair. Não pensava no que poderia ter feito, o que por um lado foi bom. Mas revi o que acontecera vezes sem conta. E cada vez que o fazia sentia-me morrer um pouco mais.
Chorei durante toda a noite até à exaustão. Adormeci. Não me lembro de ter sonhado, porém é possível que o tenha feito. Quis esquecer esse dia, apagá-lo da minha mente, rasgá-lo do meu calendário, passá-lo à frente. Não tive coragem para admitir que não o podia fazer. O que mais queria era não ter vivido esse dia: 13 de Março de 1995.
No momento em que acordei senti-me vazia. Vesti-me, peguei na mochila e desci para a sala. Pousei a mochila. Fui à cozinha e comi qualquer coisa. Continuava vazia e cada vez mais só. O meu pai levou-me ao aeroporto. Comportei-me. Embarcamos mais tarde do que estava previsto. Ia viajar com a minha turma. Era o último ano que passava com eles. A viajem de avião foi espectacular. O hotel onde ficamos não era muito mau. Diverti-me. Fui à praia, à piscina do hotel, comemos todos juntos, saímos à noite. Todos se deitaram à cerca de 2 horas. Não consigo dormir. Tenho medo de me lembrar.
Comprei um postal. Escrevi-lhe. Tinha prometido que o fazia. Pousei-o em cima da mesa que temos no quarto. A lua está tão luminosa, tal como eu gosto. Tive nesse momento a noção de que não valia a pena mandar-lhe o postal. Ele, o meu maior amigo, o meu único grande amigo, nunca o iria ler. Ele abandonou-me, deixou-me para trás, traiu-me. Sim, senti-me traída quando o vi ali, naquele estado deitado. Estava com o mesmo ar calmo de sempre. Olhava para mim e chamava-me com aqueles olhos que tão bem conhecia. Não tive sequer coragem de me aproximar dele naquele dia.
Estava frio... fechei a porta da varanda.
No dia anterior não tinha só sido ele a morrer. O sangue que o rodeava, que o cobria, também era meu. Ele fazia parte de mim, mas não mais do que eu fazia parte dele.
Respirei fundo pela ultima vez. Enchi-me de medo, contudo no fundo tive coragem e, tal como ele, nem se quer disse adeus.
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