segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Adeus!

Implorei-te que não te fosses embora. Não me ouviste. Olhei para ti. Não vi mais nada. Limitei-me a permanecer imóvel e a olhar para o infinito. Eras a única pessoa que me compreendia. Eras capaz de exprimir exactamente o que nesse momento estava a pensar. Fazias-me sorrir. Conhecíamo-nos à vários anos. Costumávamos conversar. Duvido ainda que te lembrasses desses tempos. Ultimamente as coisas que me dizias não me faziam sentido. Deixei de te compreender. Deixei de me sentir como parte de ti como antes acontecia. Senti medo. Tive a sensação de que te estava a perder. Senti que te estavas a deixar ir abaixo e que não me estavas a arrastar contigo, como costumavas fazer. Não compreendia. Costumávamos partilhar todas as sensações e experiências novas. Porque estavas tu a negar-me o conhecimento do que se passava dentro da tua cabeça? Que pensamentos tinhas que não podias compartilhar? Porque é que não estava, desta vez, à altura? Deixaras de comunicar. Parecias uma criança de quatro anos que pergunta o porquê de tudo. E a resposta nem sequer te interessava pois não esperavas por ela. Perguntavas incessantemente. Perguntavas por perguntar. Não te sabia responder. Costumavas ser tu aquela que julga ter sempre resposta para tudo, nunca eu.
Não tinha nada para te oferecer para além de afecto. Não te mostraste interessada. Partilhei contigo memórias. Não sorriste sequer. Fechaste-te num mundo demasiado duro para que pudesse penetrá-lo. Estavas tão à vontade dentro dele que parecia ter sido feito à tua medida. Estranhei o motivo que, pela primeira vez, me impedia de entrar. Tentei a todo o esforço falar contigo. Tu não emitiste um som. Teus olhos viam através de mim. Cheguei a duvidar de que estava no mesmo quarto que tu. Não consegui despertar em ti nenhuma emoção. Estavas tão magra, tão calma, tão longe de mim que parecias preparada para deixar a qualquer momento o teu corpo e partir.
Chorei. Nem te apercebeste. Abracei-te. Senti todos os teus ossos, mas não te senti a ti. Fiz-te promessas. Não sei se as ouviste. A última era de que não chorava se de facto morresses. Sorriste e foi o último gesto que fizeste. Tombaste lentamente para o lado como quem se deixa ir. Parecia que apenas tinhas adormecido. Mas esse sono seria para toda a eternidade. Não te levantaste mais. Nunca mais.
A tua mãe disse-me que mais cedo ou mais tarde isso iria acontecer. Que ter-me visto tinha sido o teu ultimo pedido e que estava feliz por o ter realizado. Beijou-me como se também ela se despedisse de mim. Disse-me para não me esquecer que estava em casa. Virou costas com toda a calma e foi para o telefone. Confirmou dizendo que te podiam vir buscar. Pediu-me que a ajudasse a escolher uma roupa. Acedi mas à porta do teu quarto parei. Não tinha coragem de voltar a entrar. Ela compreendeu. Perguntou-me se ia embora, confirmei-lhe com um abanar de cabeça. Ela sorriu e pediu-me que não desaparecesse. Recusei-me a chorar. Cumpriria a promessa. Fiquei como tu, sem palavras. O que é que poderia haver a dizer? A tua mãe estava tão calma que cheguei a pensar que não passava de uma brincadeira. Amanhã passaria por tua casa como fazia desde que estavas assim. Amanhã veria que tudo estava na mesma. Não podias ter partido. Como tu própria dizias não tinhas para onde ir.
Tive medo que não soubesses que gostava de ti. Voltei para trás para to dizer. À porta de tua casa parei. Tu sabias que sim. Lembrei-me de quando me pediste para te ajudar a fazer o teu curriculum. Disseste que não querias ficar sem nada para fazer depois de acontecer tudo o que tinha de acontecer. Foi a última vez que vi a tua mãe chorar. Após ver que estavas em paz com o fim também ela acabou por se conformar. Mas eu nunca fora assim. O teu fim não dizia respeito só a ti. Então e eu? Como pudeste ter coragem de te ires embora sem me dizer nada. Sem me perguntares se não me importava. Sim, fiquei chateada contigo. Ultimamente não me dizias nada. Deixavas-me constantemente de parte. E acredita que desta vez um simples "desculpa" não serviria...
Corri para casa. Podias lembrar-te de me telefonares. Tinha de estar em casa à espera do teu telefonema. Cheguei. A minha mãe quis falar. Como sempre não estava disposta a isso. Disse-lhe que não podia ser naquela altura. Mais tarde, talvez. Aceitou. Sentei-me junto ao telefone. Liguei o televisor. Esperei durante horas. O telefone tocou. Atendi decidida a não te perdoar sem mais nem menos. Tinhas de te explicar. Não eras tu. Fiquei um pouco desiludida mas passei o telefone ao meu irmão. Pedi-lhe para não demorar. Disse-lhe que esperava um telefonema. Pela primeira vez não discutiu comigo. Passou-me a mão pelo cabelo e prometeu não demorar muito. Logo depois de desligar, o telefone voltou a tocar. Atendi. Era a tua mãe. Disse-me que estava tudo pronto. Para aparecer lá de manhã. Depois pediu para falar com a minha mãe. Passei o telefone. Fui para o meu quarto. Só não lhe perguntei por ti porque sei o quanto ficavas chateada comigo quando falava com a tua mãe. Depois ela queria sempre saber o que tinha acontecido e quem a ouvia eras tu. Sabia que não aguentarias não falar comigo amanhã. A única vez que ficaste 24 horas sem falar comigo foi quando acabaste com um dos teus namorados depois de eu te dizer que ele se tinha atirado a mim. Mas até isso passou.
Adormeci, acordando apenas na manhã seguinte. A minha mãe é que me veio acordar. Tinha tirado do armário o vestido preto que tanto gostava. Lembro-me quando tu me confessaste que o teu primo me tinha adorado ver com aquele vestido. Advertiste-me imediatamente para não o usar muitas vezes ou teria de o aguentar todos os fins de semana. Nunca te disse mas eu sempre gostara dele. E lá no fundo tu sabias. Não era preciso nenhuma de nós dizer nada. Só de olhar para mim sabias. Não ficaste portanto surpreendida quando te contei que estávamos "a andar". Ficaste feliz por mim. Contava-te tudo o que se passava. E tu costumavas ficar tão entusiasmada quanto eu.
Fui tomar banho. Quando pequenas costumavas vir para minha casa. Muitas vezes tomávamos banho juntas. Adoravas pôr o meu cabelo em pé, como a crista de uma galinha. Depois rias-te de mim e atiravas-me com água. Logo que começávamos a chapinhar na água ouvíamos a voz da minha mãe que rapidamente acorria à casa de banho. Ralhava sempre connosco por deixarmos o chão ensopado. Mas acabava por ceder ao nosso olhar triste e culpado. Divertíamo-nos imenso. Saí da casa de banho enrolada na toalha. O meu irmão que esperava calmamente para entrar, olhou para mim carinhosamente. Deu-me um beijo na testa. E entrou, olhando para mim à medida que me afastava em direcção ao meu quarto. Vesti-me e sentei-me sobre a cama que estava ainda por fazer. Esperei calmamente pela hora de irmos. O meu pai estava para fora, como sempre. A minha mãe saia e entrava de casa, tentando sempre dar uma mãozinha à tua mãe.
O meu mano bateu à porta e perguntou-me se podia entrar. Consenti. Há vários anos que não entrava. Informou-me que o teu primo tinha telefonado. Ia ter comigo mais tarde. Sentou-se ao meu lado. Perguntou-me se estava só. Olhei em volta. Sorri. Sim estava só. As memórias do tempo em que era divertido estar contigo, do tempo em que podia realmente dizer que éramos amigas estavam a esvanecer. Olhei para ele que não tirava os olhos do quadro que me ofereceu quando estava na primária. Eu devia ter uns três ou quatro anos. Era o desenho de uma borboleta, a mais bonita que já tinha visto. Quando mo deu ensinou-me a dizer borboleta. Contentou-se com a minha tentativa frustrada de "boboeca". Olhou para o relógio e disse que estava na hora. Levantou-se e estendeu-me a mão. "E agora" retorqui eu, esperando por uma resposta reveladora. Ele nada disse. Abraçou-me e levou-me naquele abraço, amparando-me ao longo do caminho.
Nunca vira a tua casa tão cheia. Não conhecia nem metade das pessoas que me falavam amavelmente. Não prestava muita atenção ao que me diziam. Procurava-te com os olhos no meio da multidão. Não te vi. A tua mãe tinha uma olheiras que davam pena. Não a via assim desde aquela semana em que o teu pai saiu finalmente de casa. Foram todos para a igreja. Como sempre deixei-me ficar do lado de fora. Sabias que evitava entrar. Às vezes ficavas a fazer-me companhia. Conversávamos sobre a existência de Deus. Eu não era uma crente, tu não tomavas partidos. Não estavas muito convencida da Sua existência, mas não O negavas só para o caso de Ele realmente existir. A última vez que me vira em frente àquela igreja fora no casamento da tua irmã, uns nove meses atrás. Perguntava-me se estarias em casa. Há pelo menos mês e meio atrás que estavas de cama.
Sentia muito a tua falta. Tentei lembrar-me de ti a andar para cima e para baixo comigo. Foi-se tornando cada vez mais difícil. O teu pai chegou atrasado. Olhou para mim. Disse-me que aquilo não devia ter acontecido porém não foi capaz de dizer mais nada. Passado pouco tempo voltou a sair. Sentou-se ao meu lado. Meteu a cabeça entre as mãos. Fez-me perguntas sobre ti. Nunca pensei que ele gostasse tanto de ti. Não sabia que o teu estado era tão grave. Perguntou-me à quanto tempo estavas assim. A tua mãe evitava falar no assunto cada vez que ele telefonava. Tu sempre o desprezas-te. Cada vez que te telefonava, te mandava alguma coisa pelos anos ou Natal, tu achavas que era por se sentir culpado de te ter abandonado. Na verdade não era. Ele tinha abandonado a tua mãe, no entanto continuava a gostar de ti e dos teus irmãos. Falei-lhe sobre ti. Soube-me bem. Ele chorou. Acho que ele teve a noção de que não te conhecia mais. Realmente tu não eras mais aquela miúda que ele conhecera à cinco anos atrás. Tanto tinha acontecido desde essa altura, que se calhar mal te reconheceria se te visse na rua.
Antes de se levantar e ir embora, o teu pai despediu-se de mim como se se despedisse de ti para sempre. Chorou tanto que tive pena dele. Se tu estivesses ali sabia que dirias que quem tem penas são as galinhas.
As pessoas começaram a sair. Andavam umas atrás das outras como numa procissão. A minha mãe parou junto a mim. Perguntou-me se iria com eles. Disse-lhe que não. Não valia a pena. Continuei sentada no mesmo sítio. Esperava ainda por ti. Deixei o tempo passar e calmamente, sem pressas, ele passou. Tu já não vinhas. No fundo eu sabia. Sem pensar comecei a andar. Quando Mahomet não vem à montanha, vai a montanha a Mahomet. Quando cheguei todos se dispersaram. Parecia que sabiam que precisávamos de conversar. Deixaram-nos a sós.
Tive coragem e despedi-me de ti. Perdoei-te por me teres deixado. Na verdade tu partiras no dia em que começaste a dar-te bem com os teus novos amigos. No entanto desta vez não haveria retorno. Maldito vício que te afastava cada dia para mais longe de todos nós. Como podias ter tu abandonado as pessoas que mais te amavam. Ouvia repetidamente dentro da minha cabeça as palavras do teu pai. Via diante dos meus olhos o sofrimento de toda a tua família. Lembrei-me o dia em que confessaste o teu primeiro grande erro. Lembro-me do medo e vergonha que sentiste, do quanto choraste, das promessas que me fizeste. Disseste-me adeus nesse dia sem porém o realmente dizer. O teu primo chegou. Ele abraçou-me, eu chorei. Admiti a tua morte. Hoje era a minha vez de te dizer adeus.
Adeus!

2 comentários:

  1. não linda, não é real... não fiques triste.... mas pelo menos deu pra ver que consegui transmitir bem aquilo que queria!

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A hug