quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

the end... (multi-part story)

Ela sentiu a sua alma pesada. Respirava calma e profundamente tentando aliviar o aperto que sentia no coração. Não estava feliz. Sentia uma enorme vontade de chorar mas não o fazia. Sentada junto à janela do seu apartamento no quinto andar, olhava sobre a cidade. Adorava ficar ali sentada, embrulhada numa manta, a observar o transito. Especialmente nas noites chuvosas de inverno. A chuva batia e escorria pela janela como quem chora. Lá em baixo, a iluminação das ruas e dos carros sobressaíam sobre o manto escuro da noite. Levantou-se do seu cantinho. Foi à cozinha buscar gelado. Resolveu fazer nessa noite um pouco de tudo que gostava.
Antes de voltar para o seu lugar especial passou pela aparelhagem. Colocou um dos seus CDs preferidos a tocar. A cada colherada que dava e que calmamente saboreava, relembrava todos aos quais tentara dizer e não conseguira transmitir a mensagem. E os sinais que dava não tinham começado no dia ou semana anterior. Não. Há já vários meses que tentava fazer com que compreendessem. Talvez não se importassem. Talvez pensassem que não tinha coragem.
Tentava pensar nos amigos. Nos bons momentos vividos com eles. Não conseguia. Só lhe vinham à memória os insultos, as críticas, o desprezo... De nada mais se conseguia lembrar. Não era capaz de recordar a última vez que sorrira. As lágrimas ameaçavam cair a todo o momento. E a vontade de as conter era cada vez menor.
Olhava desesperadamente para o telefone. Esperava um telefonema de ninguém em especial. Algo que a impedisse. Implorava por qualquer coisa, por alguém, sem saber bem a quem. A solidão era tão grande que se sentia a ser esmagada por ela. Sentia-se mínima. O que não dava por um amigo, por uma palavra carinhosa, por um sorriso. Tudo! Estava disposta a dar tudo, até a vida, por qualquer coisa mais do que o tinha. Não tinha sido capaz de encontrar ninguém disposta a fazê-lo.
Sentia que estava a ser invadida pelo desespero. Não aguentava mais. Pela última vez tentou telefonar ao seu melhor amigo. De novo ninguém atendeu. Desta vez não foi sequer capaz de deixar mensagem. Já o tinha feito mais de dez vezes, na esperança que alguém ouvisse e a viesse salvar dessa angústia.
Desistiu. Largou o auscultador. Pousou a embalagem do gelado. Levantou-se. Abandonou a manta. Caminhou calmamente em direcção à porta. Abriu-a e saiu. Continuou, parou só em frente ao elevador. Carregou no botão, chamando-o. Esperou. Ouviu o barulho que anunciava a chegada do elevador. As portas abriram-se. Entrou. Pressionou no dispositivo referente ao último andar. Olhou para o corredor até as portas se fecharem. Olhou-se ao espelho e limpou as lágrimas. Fitou de novo as portas que, pouco depois, se voltaram a abrir. Saiu. Subiu o último lanço de escadas que davam acesso ao terraço do telhado. Caminhou até ao muro. Olhou lá para baixo, para a rua. Sentou-se no muro. Agarrou-se com toda a sua força. Tinha vertigens. Sentia a todo o momento que alguém poderia aparecer por detrás e que poderia empurrá-la. Sentiu medo de morrer. Fechou os olhos e chorou. Chorou horas a fio. Quis gritar desalmadamente. Porém não o fez. Esperou por alguém que a salvasse. Acreditava terminantemente que alguém viria. Mas ninguém apareceu. Ninguém. Olhou para o relógio. Não chegou a ver que horas eram. Sabia que já era tarde demais. E simplesmente desistiu.
Gritou.
Saltou.
Tudo o que queria era ver, ocasionalmente, uma mão disposta a ajudar. Tudo o que queria era que olhassem para ela e que realmente a vissem. Tudo o que queria era poder falar com alguém. Tudo o que queria era voltar a sorrir. Sentia que não era pedir muito. Odiava estar posta de parte. Estava farta de não ser ninguém. Estava farta de tentar e não conseguir. Abominava a solidão que cada dia a matava um pouco mais. Só queria ver que alguém estaria lá para o que fosse preciso.
Viu o chão aproximar-se. Estava aterrorizada. Via o fim cada vez mais próximo.
Lembrou-se da sua infância. Da casa onde vivera nos seus primeiros anos de vida. Dos parentes mais chegados. Lembrou-se das suas idas à praia. Dos seus gelados preferidos. Da cor do mar. Da textura da areia. Lembrou-se dos campos cobertos de flores durante a primavera. Das flores amarelas que colhia todos os anos. Dos passarinhos que caíam dos ninhos e que ajudava a criar. Lembrou-se dos passeios que fazia aos fins de semana com os avós. Da habitual passagem pelo rio. Das suas brincadeiras na água. Dos grandes almoços que lá faziam.
Chorava. Via o fim chegar.
Lembrou-se da sua adolescência. Dos amigos. Dos colegas de escola. Dos amores. Dos desgostos. Mas principalmente lembrou-se de como era feliz e de como já não o era. Mais que nunca quis morrer. Passaram-lhe pela cabeça a cara da melhor amiga de infância, do primeiro namorado, dos pais... sentiu vergonha. Ela já tinha desistido. Não havia caminho de volta.
Chegou ao fim. Ficou estendida no passeio. A cidade parecia deserta. Nem assim lhe davam um momento de atenção. A chuva caiu cada vez mais forte.




Sim. Estava triste. Estava desesperada. Ninguém era capaz de ver que cada vez mais se estava a afundar no seu próprio mundo. Sentia-se sufocar. Chorava. Não era capaz de parar. Sentia-se abandonada. Esquecida num canto. Sem uma palavra de carinho de conforto.
Despiu-se. Deixou as peças de roupa espalhadas pelo chão do quarto. Olhou discretamente pela janela. Era já praticamente de noite. A chuva caía incessantemente. As ruas estavam repletas de carros. Era hora de ponta. No entanto não via ninguém passar. Virou costas. Olhou para os retratos de pessoas que conhecia. Questionava-se se realmente os conhecia, ou se eles a conheciam a ela. Não estava muito convencida de que pudesse haver um mutuo conhecimento.
Caminhou para a porta do quarto que se encontrava, como sempre, aberta. Não era habitual fechá-la. Vivia sozinha, não havia necessidade de o fazer. Passou pela porta. Caminhou pelo corredor. Entrou na casa de banho. Abriu as torneiras da banheira. Deixou a água a correr. Retirou o robe que estava pendurado por detrás da porta. Vestiu-o. Verificou a temperatura da água. Deixou a banheira ir enchendo gradualmente. Pegou num frasquinho de óleos e despejou-o na água. Saiu da casa de banho.
Atravessou a sala e entrou na cozinha. Encheu um copo com sumo de fruta natural. Pegou no copo e sentou-se no sofá. Olhou para o telefone. Voltou para a cozinha. Abriu todas as gavetas. Abriu os armários. Olhou para o que procurava e meteu-a ao bolso. Voltou à sala. Voltou a sentar-se e a pegar no copo. Levou-o à boca. Não chegou a beber. Pegou no telefone. Marcou o número. Precisava de falar. Escolheu aquele que julgava ser o seu maior amigo. Não tinha mais ninguém. Deixou tocar. Ninguém atendeu. Desesperou. Chorou. Quando acalmou e parou de chorar, estava ainda mais determinada a fazê-lo do que antes.
Levantou-se do sofá. Levou o copo de sumo e o telefone para a casa de banho. A água já transbordava da banheira. Fechou as torneiras. Despiu o robe. Entrou na banheira. Remarcou o número. Tentou mais uma vez. Deixou-o tocar. Posou o telefone no chão encharcado. Deixou o auscultador pousado ao lado. Deixou-se submergir. Voltou à superfície. Passou as mãos pelo cabelo molhado. Apanhou o robe do chão. Deixou-o pingar continuamente enquanto procurava o bolso. Retirou de dentro dele uma faca.
Olhou para o relógio. Estava parado. Eram dezanove horas, quarenta e três minutos e dezoito segundos. Tirou-o do pulso. Sorriu. Deixou-o cair na água. Deslizou a faca pelo pulso fazendo alguma pressão. Sentiu um forte ardor. Repetiu o procedimento com o outro pulso. Mais rápido do que contava a água que a mantinha quente tornou-se vermelha. Não pensou em nada. Não recordou os momentos bons nem os maus. Apenas chorou.
Perdeu os sentidos. Não voltou a recuperá-los nunca mais. Mas da mesma forma não recuperou nunca mais a dor que a levara a cometer aquele acto. Deixou de se sentir triste e só. Deixou de chorar. Sorriu. Morreu.
O seu corpo ficou inerte dentro de água. A faca ensanguentada caíra ao chão. Ficara em cima do robe branco. Os seus olhos extremamente abertos fitavam a porta. Esperavam tardiamente por alguém que a viesse salvar. Reinava na casa uma calma absoluta. A chuva batia cada vez mais forte na janela. O som da linha ocupada subia de tom gradualmente. A torneira pingava. Gota a gota fazia a água estremecer e escorrer pela parede da banheira até ao chão.
Em cima da cama estava uma carta. Uma despedida que não tivera oportunidade de fazer pessoalmente. Não era dirigida a ninguém em especial. Talvez a tivesse escrito apenas para se despedir de si mesma. Para dizer adeus e pedir desculpa pelo que estava a fazer a si própria. Talvez estivesse a tentar fazer com que todos que não lhe tinham dado atenção se sentissem culpados. Estava a dar-lhes o castigo que achava que mereciam.



Encheu o copo com vodka e sumo de maçã, pela sexta vez. Pegou na caixa dos analgésicos. Já os tinha tomado a todos. Procurou outros. Não encontrou. Desistiu deles. Foi ao quarto. Abriu a gaveta da sua roupa interior. Retirou de lá o revolver. Chorou. Abriu a boca. Fez tudo como vira imensas vezes nos filmes. As lágrimas não paravam de cair. Disparou.
O seu corpo ficou estendido, apático, no chão. Na parede atrás de si escorria sangue. Não havia nada a fazer.

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