sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

...Honey...

O sol brilhava. Ainda brilhava. Mesmo depois de tudo. Ela não era capaz de perceber como isso podia acontecer. O mar vinha ter com ela em cada onda que rebentava na areia. Mas depressa recuava. Tudo se afastava. Tudo a magoava. Era o vento que lhe cortava como uma faca de tão gelado que se mostrava. E era o sol que brilhava la do alto, lembrando-lhe que o que sentia não importava minimamente. Era o mar, brusco e severo, que ameaçava constantemente molhá-la mas nem se dava ao trabalho de o fazer... nem isso merecia. E era o tempo que se recusava a parar um pouco que fosse e ficar à sua espera.
Os sons abafavam a pouca racionalidade que podia ter. Não era capaz de pensar. Ela apenas sentia. Ela apenas sofria. E esse sofrimento insistia em esmagá-la por dentro deixando o seu exterior intacto, como se nada se passasse. Mas passava-se algo. Obviamente passava-se algo. E era algo que a levava ao desespero. Um desespero interior que tinha uma origem, mas que não parecia ter uma razão de existir. Um desespero que era maior que ela. Não fazia ideia de como controlá-lo, como reduzir os seus impactos negativos. No fundo preferia ser levada. Preferia deixar-se ser corroída até ao ultimo pedaço de alma.
E entao o sol desistiu. A lua acariciou-a com o seu olhar suave. E a noite secou-lhe as lágrimas que lhe caíram há tantas horas que havia já perdido a conta. O vento cessou. E a réstia da brisa que ainda se fazia sentir acalmou a sua respiração sufocada pelo choro. O mar, sentindo-se mais sereno, convidou-a a entrar, a juntar-se a ele na sua imensidão. Pela primeira vez, em muitas horas, sentiu-se amada. A esperança surgiu bem lá dentro de si e foi-se alastrando por todo o seu corpo como uma fonte de calor interna. Espontaneamente um sorriso escapou-lhe dos lábios e ali permaneceu. Continuava com um olhar distante mas os seus pensamentos estavam cada vez mais próximos. Soltou o cabelo deixando-o ondular ao sabor da brisa. Respirou fundo inspirando toda a coragem que lhe tinha faltado nesse dia. Sentiu-me bem. Sentiu-me maior do que alguma vez se tinha sentido. Sentiu-me invencível. Nesse momento ninguém seria capaz de a deitar abaixo. O seu sorriso cresceu como se quisesse brotar de dentro dela e passar a ter existência própria. A calma emanava dela como se tratasse de uma essência única e maravilhosa, capaz de seduzir qualquer um que estivesse no seu alcance.
Levantou-se da areia sacudindo levemente a sua roupa. Não tinha noção, mas estava mais bela que nunca. Ninguém sabia dizer especificamente o que nela havia mudado contudo estava totalmente diferente. Tinha um brilho, uma espécie de aura indescritível que a fazia sobressair no meio de qualquer multidão. Algo nela era tão especial que não havia palavras que pudessem descrevê-la. Mas por onde quer que passasse deixava no ar o mistério irresistível, típico do oriente. Descalça, foi caminhando pela areia seca mas fria. Mais que caminhar, ela parecia flutuar. Para todos não podia ser mais que uma miragem, tal era a incapacidade de acreditar em tal anjo.
Saiu da praia. Os olhares de quem passasse centravam-se nela como um íman. Era-lhes impossível desviar o olhar. E não era algo relacionado com o prazer carnal, não. Estava muito mais próximo do divino, espiritual. Não era o corpo dela que prendia a atenção, mas sim a sua energia que estava muito para além de qualquer metáfora pois nada irradiava tal poder de atracção. Com toda a sua paz andou até casa. Passou casas, carros, pessoas. A iluminação da rua não se equiparava à luz que provinha do sorriso que com todos gratificava.
Não se pode dizer que o que sentia era felicidade. Estava muito para além disso. A felicidade é momentânea, é efémera, é exacerbada. O que ela sentia era calmo. Era de tal modo duradouro que podia dar-se ao luxo de partilhar com todos que nunca diminuiria. Mas por muito que partilhasse ninguém conseguia chegar aquele ponto em que ela se encontrava. Talvez, em parte, fosse isso que fizesse dela alguém tão especial. Era mais do que alguém alguma vez tinha sido.
Parou à porta de casa. Sentou-se no passeio com o seu sorriso, a sua paz, a sua beleza, o seu brilho. Nunca estaria sozinha. Todas as estrelas viram a sua chama esvanecer um pouco. Eu suspeito que se tratava de ciúmes mas não posso afirmá-lo com certeza. Se pudesse tinha-me sentado ao lado dela. Sabia que ela esperava pelo seu destino com a quietude que só o silêncio é capaz de ter. E ela também o sabia. Esperava-o porque sabia como iria ser perfeito, sabia como iria encaixar lindamente com tudo o que de bom e de mau estava para acontecer. Sabia que a sua vida nunca seria um mar de rosas mas ninguém como ela para reconhecer o verdadeiro valor dos espinhos. Já tinha passado por tanto que tratava por tu a dor e o sofrimento. Agora sabia sorrir-lhes, dar-lhes um beijo na face e desejar-lhes uma boa noite. Sabia que nem sempre uma lágrima era o melhor, ainda que fosse normalmente o mais fácil. E não era apenas uma máscara atrás da qual escondesse a sua verdadeira emoção. Não, era muito mais que isso. Era uma consciência integral da vida como um todo. Era uma certeza absoluta de que alguém cá de cima iria olhar por ela, que alguém iria endireitar algumas das linhas tortas do destino, que alguém iria sorrir sempre que ela sorrisse e chorar sempre que os seus olhos quisessem lacrimejar. Esse alguém seria desde logo eu. Era o meu papel ser o seu anjo da guarda desde o primeiro segundo após o meu perecimento. Era eu quem garantia essa esperança e calma que ela estava a sentir e ela sabia-o. Estava finalmente a cumprir a minha missão de vida. Estava a ser mais do que eu. Ela permitia que fosse muito mais que isso. Éramos tão parecidas em vida que agora éramos quase uma só pessoa, ainda que eu tivesse a hipótese de ser omnipresente. Um dia também ela virá a ser um anjo, mais do que já o é. Mas não há pressas. A vida ainda tem demasiadas coisas para ambas vivermos. Por isso apenas lhe digo:
“Até um dia, não muito em breve! I’ll always keep on loving you, honey”

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