terça-feira, 12 de dezembro de 2006

you and me....

Olhaste para mim como se tivesse sido a primeira vez que o tivesses feito. Aos anos que esperava por isso. Suavemente seguraste a minha cara com as tuas mãos. Fechamos os olhos simultaneamente. Tu sabias o que estavas a fazer, eu nem sequer queria saber. Senti os teus lábios aproximarem-se dos meus lentamente. Deixei de ouvir a música que até aí parecia arrebentar os meus tímpanos. Ouvi-te inspirar e expirar. Senti-o ao longo da minha espinha que parecia vibrar com o ritmo da tua respiração. Quis olhar para ti e ver-te, ter a certeza que eras tu. Mas não tive coragem de abrir os olhos. Tive medo que tudo não passasse de um sonho à tanto desejado. Beijaste-me. Nunca ninguém antes o tinha feito dessa maneira. Tu devias saber, ainda que nunca antes te tivesses dignado a olhar para mim. O meu coração batia a um tal ritmo que cheguei a julgar que fosse sair de dentro do meu peito. Naquele momento fizeste-me sentir-me desejada. Senti-me tão feliz que quase chorei. Passaste-me a mão pelo cabelo que, anteriormente, tinhas solto. Olhaste-me nos olhos. Voltaste a beijar-me. Não me disseste nada. Foste começando a percorrer o meu corpo com as tuas mãos. Eu nada disse. Tentei olhar-te, mas não consegui. Fiquei com medo. Desapertaste o primeiro botão da minha blusa. E depois o segundo. E, de um momento para o outro, sem que eu desse conta do que estavas a fazer, deparei-me contigo a acariciar-me intimamente. Retraí-me. Pedi que parasses. Tu não me ouvias. Não conseguia perceber o que estava a acontecer. Na verdade, eu até percebia, só não compreendia o porquê. Sabias tão bem quanto eu que, se tivesses calma, acabavas por ter o que querias de mim. Mas tu não te preocupaste comigo. Achaste que estava a ter o que merecia.Continuamente te disse para parares, que não queria continuar. Tu actuavas como se eu não estivesse lá. O meu corpo não respondia aos comandos que o meu cérebro constantemente lhe mandava. Queria reagir mas o meu corpo manteve-se imóvel, inerte como se não fosse meu. Comecei a chorar. Acabei por simplesmente me abstrair do que estava a acontecer. Foi como se estivesse a ver aquilo a passar-se com outra pessoa. Tu não estavas a ter relações sexuais comigo. Estavas apenas a usar o meu corpo como se de um qualquer objecto se tratasse. Senti a fria aragem que levemente arrepiava a minha pele. Olhei em volta. O céu estava limpo. Conseguia ver através do seu escuro manto os pequenos pontos de luz que perfuram a noite. Ouvi passos, abafados pelos sons que imitias. Tentei ouvir-te mas não te compreendi. Mantive os olhos bem abertos durante o tempo que me usaste. Queria assegurar que via o que se estava a passar visto não ter a certeza de o estar a sentir. Cheguei a pensar iria morrer, mas o sangue insistia em correr pelas minhas veias. O meu coração não parou de bater. Quando acabaste levantaste-te, vestiste-te e viraste costas. Disseste-me que era esquisita, e rindo foste-te embora. Fiquei ali deitada. Olhei para o meu corpo. Não o reconheci. Tentei a todo o esforço tapar-me. Queria esconder-me do mundo. A vergonha do que se tinha passado invadiu o meu corpo e deixou-o sujo. Mais sujo do que algum dia poderia estar. Como poderia voltar a olhar para ti? Como poderia justificar-me pelo que fiz? Odiei-me mais do que algum dia te odiei a ti. Dentro de mim tudo me dizia que a culpa era minha. E era. Durante três anos e cinco meses tinha esperado por uma oportunidade destas e quando ela surgiu eu fechei-me com medo de ti. Só então me apercebi que não gostavas de mim. Senti nojo do amor que tenho por ti. Amor que quase apagaste da minha alma.A primeira coisa que fiz ao chegar a casa foi tomar banho. Mas a sujidade não saiu. Por mais que esfregasse ela teimava em permanecer em mim. Chorei tanto que fiquei vazia por dentro. Senti-me incapaz de sentir. Não queria nada. Viver, morrer, respirar, falar, ...., tudo me parecia indiferente e abstracto. Nada me parecia fazer sentido. A todo o custo tentei pensar. Porém tenho a sensação de que, com o nervosismo, me esqueci como se fazia. Talvez apenas nunca tenha aprendido a fazê-lo. Não sei.Sentei-me a um canto. Ali permaneci durante horas, abandonada de mim mesma. Então, sem que nada me levasse a isso, levantei-me e vesti-me. Sabia onde ia, contudo não tinha a mínima noção do que lá ia fazer. Levava uma roupa prática: as calças de ganga que tanto adorava, uma t-shirt em tons de cinzento e umas sapatilhas. Peguei nas chaves de casa e bati a porta ao sair. O dia parecia-se com um outro dia qualquer. Podia pensar-se que se tratava apenas de mais um dia de Primavera, todavia eu sabia que tal não era verdade. Aquele era um dia diferente. Já naquele momento era um dia especial. Foi naquele dia que a minha vida mudou. Foi naquele dia que eu perdi a minha vida, que me a arrancaste de mim como se não me pertencesse. A minha vida era minha. Mas não é mais, a minha vida acabou no instante em que foi manchada pelo acto que cometeste. Comecei a andar com um ritmo normal que foi gradualmente aumentando. A pressa de chegar era tanta que me fazia ter, constantemente, a noção de estar atrasada. Corri o máximo de tempo que o meu corpo permitiu. Fi-lo até à exaustão. No momento em que estava prestes a sucumbir ao cansaço cheguei a meu ponto de destino. Vi-te. Senti-me a ser invadida por uma enorme felicidade. As lágrimas chegaram-me aos olhos. Tu viste-me e ficaste petrificado com o meu olhar. Achaste que tinha enlouquecido. Nada podia dizer, não tinha sequer a certeza de alguma vez ter estado sã.Andei na tua direcção. Tu nem te mexeste. Estava tão feliz por te ter visto que não me apercebi do número de pessoas que nos rodeavam. Parei junto a ti. Ficamos face a face. Sorri-te. Deixei a minha alegria transparecer. Não compreendeste o motivo que me havia deixado assim. Mas eu sabia: tinha a noção que tinha encontrado a solução para a dor que me estava a sufocar. Tu começaste a falar mas eu não te conseguia perceber. O que tentavas dizer não me fazia sentido. Inclinei ligeiramente a cabeça persistindo com o meu sorriso. Começaste a ficar nervoso, talvez até com medo de mim. A minha alegria atingiu o seu auge. Deste um passo para trás. Olhei-te seriamente nos olhos. Continuaste a recuar. Vi a tua alma a escapar-te dos dedos. Sim, sentiste medo de mim, medo do que eu te podia fazer. Desta vez era eu que controlava a situação. Empunhei a faca que desde casa trazia na mão. Os teus olhos abriram-se ao máximo da sua capacidade e a tua vida fluiu através deles. Desde o início sabias que, ao tentar tirar-me o amor que te tinha, a razão da minha existência, estavas a desperdiçar a tua vida. Senti-me em paz enquanto o teu sangue limpava a sujidade da minha alma. Estava grata. O meu agradecimento não chegaria nunca para te explicar o bem que me tinhas feito. Beijei os teus frios lábios, sentei-me a teu lado e esperei. Em breve estaríamos juntos novamente. O meu sangue fundiu-se com o teu na calçada da rua. Desde o princípio que o meu amor por ti havia sido maior que tudo o resto. Tinha valido a pena ter acabado com a vida do teu grande amor. Tudo pelo que tinha passado tinha compensado. Esta era a prova. Fechei os olhos e esperei encontrar-te ao fundo da luz.

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