quarta-feira, 9 de maio de 2007

onde estou...


Não sei bem onde devia de estar mas acho que não devia ser bem aqui.
O sol acaricia a minha pele com toda a sua suavidade quando entra pela janela do meu quarto, mas não chega a aquecer o meu coração que continua guardado bem lá fundo, enterrado dentro de mim. O cheiro a mar já não é o suficiente para me fazer sorrir, fechar os olhos, inspirar toda a sua calma e beleza como se me conseguisse apropriar dela… As cores do mundo lá fora já não se reflectem em mim da mesma maneira. Perderam o brilho que só o meu olhar lhes sabia dar. O peso da alma prende-me ao chão e não deixa os meus sonhos vaguearem pelo tempo ou espaço. Não consigo ser mais do que o hoje. E o hoje está triste e cansado pelo tempo que não passa. Porque por mais que faça amanhã volta a ser hoje. Um hoje igual a tantos outros… um hoje onde não existe espaço de manobra para levar a vida em frente… um hoje que insiste em repetir as dores do ontem… um hoje onde o ar é cada vez mais pesado. O meu espírito começa a quebrar porque se recusa a dobrar. É demasiado teimoso, tão orgulhoso, sempre cheio de princípios cujo significado se perdeu no tempo, carregado de convicções criadas no calor do momento como forma de defesa do desconhecido…
Não sei bem onde devia de estar mas acho que não devia ser bem aqui.
O meu pequeno mundo volta a ser o meu útero protector e a criança dentro de mim volta a querer partilhar comigo aquelas lágrimas que tenho recusado derramar e que me afogam em dor. Sinto o calor da voz séria e severa do meu pai mas também o frio dos berros nervosos da minha mãe. Mas no meu mundo só existo eu. Os amigos não passam de vagas recordações numa memória desgastada e guardada numa caixa de cartão que tenho dentro do meu armário. A família desintegrou-se e a cada movimento ameaça partir-se ainda mais, por isso evito tocar-lhe. Mas a solidão não é triste, a solidão não dói assim tanto, não é a solidão que corrói por dentro. Estar só neste meu mundo de quatro paredes caiadas não me isola mas protege-me do que é triste, do que dói, do que realmente corrói por dentro. E o suspiro que sai diz tanto quanto o silêncio do meu olhar.
Não sei bem onde devia estar mas acho que não devia ser bem aqui.

1 comentário:

  1. Adorei o texto e adorei a foto, sem palavras dona Isabel aka Izzy.
    Uma artista ;)

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