quarta-feira, 31 de outubro de 2007

...confusões...

Eu não sei onde começam as palavras que não dizemos. Deixamos o momento morrer no silêncio. Fechamos os olhos e erguemos o muro que nos protege. Fechamos os olhos para não lembrar que a noite se aproxima. Não queremos admitir o adeus que nos irá separar. Escondemo-nos dele na escuridão que se aproxima sorrateiramente. Mas ao separarmo-nos fica no banco de jardim a saudade, a tristeza, a falta. No céu surgem as estrelas. Só elas sabem que choro. Só elas sabem o quanto me dói a incerteza do amanhã. Só elas conhecem a marca deixada em mim pelo passado negro como esta noite ausente de luar. Ao fechar os olhos vejo-te a sorrires para mim e sorrio também. Encho os pulmões de esperança numa certeza que não existe. Concentro-me numa felicidade virtual que não é bem minha. E na solidão da alma, no silêncio da noite vouço mil e uma vozes. Ouço-me em milhares e milhares de pensamentos. Ouço-me em milhares e milhares de convicções auto-impostas. Ouço tudo o que quero ouvir, misturado com tudo o que não quero. São mil e uma vozes, mas são todas minhas. São mil e um eus dentro de mim a demarcar a sua posição relativa. Quero libertar o grito que as cala mas não sou capaz. Também a minha voz está presa cá dentro. Aos poucos abro os olhos e habituo-os à luz da lua que, momentaneamente, me quer cegar. Vermelhos da tristeza, negros do resto da maquiagem, verdes e castanhos do corpo e alma, é assim que os meu olhos se mostram de novo ao mundo. Aos poucos eles vão acordando para uma nova realidade criada a partir da velha. Aos poucos as vozes vão cantando em uníssono. Aos pouco vou acordando de um pesadelo. Vou saindo do meu buraco onde não sou nada, onde tudo em mim é incompleto sem os outros. Vou saindo para a luz que cobre esta noite sombria onde existo sem ti. Às vezes pergunto-me se existo apenas no escuro da noite onde me pareço esconder quando me sinto só. Às vezes acredito que sim... Mas quando me cobre a luz branca e pura de uma certeza inabalável sei que não. Sei que é por mim que te apaixonarás quando te souber dizer amor. Sei que sob o meu sorriso e simpatia ficarás hipnotizado horas a fim. Sei que sou deusa da noite e do escuro, da lua e das estrelas, de ti. Então, face a face, olhando-te nos olhos, perco as certezas. Contigo perco as palavras para tudo e nada. Só sinto aquele fio de seda prateado que nos une e nos puxa um para o outro. As vozes voltam para dentro de mim, trazendo consigo as peguntas, as duvidas, as inquietações. Fecho os olhos para não te ver mais. Espero que toda a confusão desapareça. Fica o medo que a sensação boa do fio de seda prateado desapareça também. Mantenho os olhos fechados. Fico a ouvir as vozes. Sinto a tua respiração em mim. Sinto o calor e suor que emanam do teu corpo cansado do sexo que fazemos sem definições nem porquês. Sinto o teu coração bater chamando por mim, querendo mais do que aquilo que me pedes. Sinto-te em mim. Tento fazer com que isso preencha os meus vazios. Sinto-te como senti tantos tantas outras vezes. Mas tu também me sentes e envolvida no teu abraço deixo-me levar para onde não sei querer ir. Tu sentes mais que o meu corpo embrulhado no teu. Tu abres os teus olhos e, mesmo sem me compreenderes (bicho estranho de outro sexo e mundo), vês-me. Ficamos abraçados no escuro da noite, sabendo que o prazo de validade já terminou. Ficamos presos um ao outro quando tudo o que resta são as estrelas como companhia (só elas nos sabem ver juntos). Eu fecho os olhos. Tu fechas ou teus. O ar enche-se de vozes. As minhas e as tuas misturam-se no silêncio dos lábios molhados dos beijos carregados de desejo. Olho-te nos olhos e questiono-te sem questões. Elas já nos bombardeiam através das vozes. Mas tu respondes.“Não fiques confusa, pois todas essas vozes serão apenas os teus desejos a acordarem para uma noite sombria coberta pela mais pura luz!” Sorrio-te porque não te compreendo mas (re)conheço-te.

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