Saio de casa ainda a cidade está coberta de luzes e infestada de vidas activas num frenesim de socialização. Sigo por trajectos tão conhecidos que me permitem não pensar no caminho, apenas no destino. Conversas deixadas a meio, interrompidas por questões inúteis levantadas por olhares cruzados enternecidos, quem sabe talvez apaixonados. Partilhas de trivialidades quotidianas durante silêncios mais prolongados ocorridos entre actos maquinais desprovidos de pensamentos. Beijos soltos que marcam a quebra do ritmo durante filmes que nos colam tanto às cenas como uns aos outros. Abraços que preenchem lacunas deixadas por aquilo que não se quer dizer, por vezes até nem pensar. Os olhos cansados do prolongamento excessivo à luz raiam-se de sangue e começam a pesar. O corpo mole, aquecido pelo cobertor mágico do calor humano, deseja ficar, relaxar por completo. Trocas de carinhos incontáveis mas todas elas únicas e especiais no modo como me fazem sentir (especial), de uma forma extremamente básica e essencial. O tempo voa e as preocupações com o passar das horas aumentam a cada minuto. Depois de ultrapassar, e demasiado, o limite imposto de recolha inicio o caminho de volta para casa, de volta à cama, de volta à vida de sonhos. A cidade está adormecida e vazia de vidas atribuladas. As suas luzes são o sinal que me guia o caminho para casa, para a cama, para os sonhos, e são a companhia que a cidade de faz. Também a lua não me abandona, aquecendo-me a alma com as recordações mais imediatas, fazendo-me sorrir inadvertidamente, tornando a viagem mais curta que a distância física. No entretanto chego à cama. O meu corpo, mais cedo ou mais tarde, encontra o seu lugar entre lençóis e mantas. Eu deixo-me ir e adormecendo espero encontrar a continuação do sonho que esta noite falou mais alto que a simples e aborrecida realidade pois é esse que me está reservado.
Beijos de bom dia.
Até qualquer sonho destes.
e fico assim, com o olhar e a sede cravados em ti.
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