domingo, 24 de fevereiro de 2008

Tá tudo bem…

Penso que tudo está bem e sorrio quando saio de casa e entro na rotina do dia. Não me lembro dos dias cinzentos, das nuvens que ameaçam chuva, do frio do inverno que não há muito tempo se fazia sentir. Penso que está tudo bem e sorrio, mesmo quando surge uma tristeza inesperada. Desculpo-a com o aumento da solidão não planeada, desculpo-a com o cansaço de um acumular de um e outro dia-a-dia, desculpo-a com uma qualquer situação plausível. Penso que está tudo bem porque não me sinto mal. Penso que tudo passou e ficou perdido pelo caminho temporal, entre o passado no qual evito pensar e o presente onde não penso. Tudo está bem, é o que a razão me diz e convence-me a convencer-me disso. Os dias crescem e iluminam-se de sol e flores, as noites perdem o frio que se entranha no corpo e voltam a hipnotizar como dantes. E tudo está bem…
Mas do nada choro. Choro, porque sim, porque choro… porque… A verdade é que não sei porque choro, mas não sou capaz de parar. E custa respirar. Dói quando inspiro, como se algo me apertasse e impedisse o meu peito se encher. E as lágrimas não param de cair, como manda a lei da gravidade, e por muito que as enxugue elas não estancam a ferida que tenho na alma. Eu encolho-me dentro de mim e escondo-me. Quero proteger-me, não quero que doa mais quando já dói demais, quero levantar de novo o meu muro de pedra.
Finalmente fico sem lágrimas para derramar perante a dor indescritível e não localizável que tenho em mim. Sinto-me cansada, sinto-me usada, sinto-me velha e pronta para receber a morte com paz. E de novo me invade a tristeza. A solidão pesa mas não posso deixar ninguém aproximar-se, não posso deixar que me vejam pequena e indefesa do outro lado do muro. Já não sei confiar, já não me sei expor, já não me podem ajudar. “Please stay away”… e não me lembro como se faz para ser feliz, esqueci o sabor do sol que me faz sempre sorrir, dissolveu-se a essência de mim em lágrimas salgadas. Instala-se a calma do vazio que procede a tempestade, fito o nada que está para além das coisas e fico em silêncio de pensamentos e sensações. “Não se aproximem agora, por favor… deixem-me estar.”
Amanhã vou acordar, amanhã não vou estar assim, amanhã vai estar tudo bem. Pensarei que está tudo bem. E cruzar-me-ei com pessoas e irei sorrir-lhes, porque tudo irá estar bem. E a vida vai continuar. Esta ferida vai demorar a cicatrizar e de longe a longe vai sangrando não havendo muito que eu possa fazer para além de me esconder e esperar que passe. Mas tudo vai estar bem. Um dia não vai doer mais. É nisso que penso quando dói, é isso que me diz 10 minutos depois que tudo vai ficar bem, é isso que me ajuda a voltar a respirar e não desistir de vez.

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