segunda-feira, 21 de abril de 2008

mais uma para a colecção

Que posso eu dizer quando não há palavras que se apliquem em situações como estas? - pensas tu de um modo demasiado racional quando olhas para o meu corpo abandonado de vida. De tanto olhares já nem vês a pessoa que ali viveu, com quem tanto partilhaste, que te via para além do óbvio, quem não soubeste ver realmente. Agora são só formas. Agora não passa de um corpo pálido, gélido, inerte que não te conhece mais. Observas fixamente a sua cara na vã esperança de reconheceres um traço familiar que te confirme que aquilo já fui eu. Ao mesmo tempo evitas ver, pois isso era acreditar, era confirmar a tragédia que se abate na tua vida. O egoísmo é uma coisa linda. Mas tu não abandonavas aquele maldito caixão lacado a branco onde me meteram, como se fosse isso te impedisse de ficar longe de mim. Tão perdida que tu estavas naquele momento. Parecia que tinhas perdido a tua âncora, o peso que te segurava nesta vida, no aqui, no agora. Ali eras apenas vazio à deriva num turbilhão de tudo e de nada. Querias tanto chorar e voltar a sentir alguma coisa por pior que fosse, mas nem disso eras capaz. A tua alma fugira de ti como vapor de água a fugir do teu corpo depois de um banho bem quente enquanto que o teu sangue se tornou mais espesso e mal circulava nas tuas veias não permitindo ao teu corpo ter qualquer sensação de vida deixando-te gelar literalmente. Não sentes os minutos a passarem pois ficaste para trás no momento em que duvidaste pela primeira vez em relação à noticia que sabias ter ouvido nitidamente no dia anterior. Não me ouves falar contigo porque o teu corpo se recusa a sentir mais do que já sentiu e auto-protege-se fechando-se do exterior, mas também porque na verdade não tenho muito mais para te dizer. Tudo o que queria que soubesses tentei dizer-to antes, será que o ouviste? Será que o percebeste? Mas agora nada disso me importa. Apenas tu sentes a culpa que nunca foi tua nem de mais ninguém. Foram só coisas que aconteceram, pára de tentar tirar um sentido da confusão caótica em que vivia. Foram só palavras que te disse, não queiras ver nelas sentidos que não sabes procurar. Deixa os olhos fecharem-se e esquecerem-se, momentaneamente, do caixão branco que fitas desde que chegaste. Deixa-te ir embora com as imensas pessoas que foram entrando, deixando os seus pêsames com tantas outras coisas misturadas e questões que envolvem porquês e a minha juventude, e saindo com o peso de se sentirem mais leves por esquecerem-me no momento em que abandonam a capela. Esquece-me tu também. De que adianta lembrares-te agora de tudo aquilo pelo qual passamos num passado que não consegues definir mais. Não há nada que possas fazer agora. Não há não. Pára. Eu conheço essa calma interior que nos assola quando pensamos saber o inevitável. Não. Vai-te embora. Esquece-me. Pára. Esses pensamentos não são teus. Tu não és assim. Isso é só a dor misturada com a falta de sono. Eu sei. Eu já o senti antes, mas isso passa. Respira. Larga esse pensamento. Deixa-o ficar. Onde vais? Não vás. Pára. Tu não fazes ideia do que é. Isso é só um desespero momentâneo. Não nos compares agora. Não penses agora que me compreendes, que agora tens tempo para mim. Agora é que sentes a minha falta. O teu egoísmo enoja-me. Isto é sobre mim. Pára de pensar em ti. Pára de te fazeres de vítima. Ai de ti que também te mates e me estragues o momento. Isto é para mim, isto é sobre mim, isto é por minha causa. Uma vez mais te odeio com toda a minha força, no meio de todo o amor que tenho por ti. Isso, respira. Isso, deixa esse pensamento escapar de ti. Sim, chora. Eu sei. Dói. Eu sei. Calma, respira fundo e deixa o desespero sair de ti com o expirar. Pronto, já falta pouco. O pior já passou e isso agora não vai custar tanto. Prepara-te para me dizeres adeus. Eu vou embora e quando estiveres pronta para o adeus eu volto. Prometo que te vais poder despedir desta vez. Não fujo mais.

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