quinta-feira, 10 de julho de 2008

A nossa primeira aventura

uma vez mais a noite chega para me fazer companhia. só ela me abraça e me envolve afastando a solidão dos dias. com a sua frescura arrepia-me a pele e enrijece os meus mamilos. agora na escuridão posso respirar fundo e soltar o suspiro que fui acumulando durante uma vida. mas não chega... com a imaginação, levo-me para a minha praia e coloco os maus pés descalços na areia molhada, onde a maré vai e volta para mim. a única que me vê aqui é a lua que, na sua fase crescente, me ilumina. eu solto o grito preso na garganta que me impede de falar, eu tomo de novo o controlo e paro o tempo no aqui. já não sou tua desde que nasci... já nada em mim te pertence nem sequer o direito à informação. pára de me olhar como se fosses o lobo mau, nunca mais me comerás. pára de querer mais do que o que te quero dar.
inspiro fundo e sinto o sal do mar nos meus lábios. sossego... sorrio. tu já não fazes parte desta história. sento-me deixando as pernas sendo acariciadas pelo mar. ele sim gosta de mim e eu deixo. mas ele não é capaz de afogar a solidão que me dá a mão e me tenta com promessas vãs de que assim é melhor... deito-me na areia e observo as estrelas que me observam. espero que ela se aproxime e se deite aqui ao meu lado... e já não deve faltar muito (ouço cada passo seu na areia). ela vai olhar as estrelas comigo porque também ela sabe...

eu desabafo as coisinhas pequenas:
"ontem tive uma entrevista para fazer férias num banco e fui seleccionada para a fase seguinte do processo de recrutamento que é hoje, daqui a umas horas."
[é bom, eu sei... ] e sorrimos... mas a lágrima solitária cai e ela olha-me.
"sinto-me só"
[claro que não estou, sim é só a minha cabeça a trocar-me as voltas]
"não estou habituada a estar tanto tempo sozinha, sem ninguém com quem falar, ninguém com quem simplesmente estar"
[o meu?!...]
"anda cansado do trabalho... não tem energia" ... "e ele nunca me pôs no pedestal e fez sacrifícios por mim... e é por isso que é bom, com ele sou mortal... mas não estou habituada a ficar em stand-by para os momentos livres..."
[claro que posso sempre contar contigo!]
"é por isso que te procurei esta noite, nesta praia, neste passado comum desigual nas suas igualdades"
[sim...] ...as tuas palavras desfazem os meus nós e sossegam o mais feroz dos meus medos.
....
no final entre sorrisos e partilhas estamos ambas lá no alto, no meio das estrelas [sim, merecemos isso e muito mais]... a vida está lá em baixo na praia.... e estamos no meio do mar rindo tão alto que quase acordamos o sol... as pedras que se metem no nosso caminho ficaram na areia com a nossa roupa. finalmente conseguimos ser doidas e divertidamente espontâneas ao mesmo tempo no mesmo local. Aqui se passou a nossa primeira aventura!

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