A noite cobre-nos de sombras e aconchega-nos. Não sei onde me queres levar mas eu deixo-me ir porque contigo sinto-me segura. As palavras fluem de nós como se não existissem segredos no mundo e o livro estivesse aberto a pedir para ser lido. Contamos tudo o que não admitimos a nós proprios como quem conta estrelas na noite e depressa esquecemos-nos de tudo o que sabemos tão bem. Vês quem sou e mesmo sem o dizeres sei que me sabes de cor. Fico-te gravada na pele das tuas mãos de cada vez que me tocas, tão suavemente, com todo o cuidado para não me partires a casca. E eu olho para ti e o nevoeiro dissipa-se. Sinto o teu calor por todo o meu corpo e encho-me de certezas de cada vez que inspiro o ar com cheiro a mar. Sabes que na praia que me viu crescer é onde me sinto em casa. Sabes que sou feita de porcelana e quais as feridas produndas que tenho. Ouves todas as palavras que tenho para dizer e respondes a todas as minhas perguntas.
No meio de tanta perfeição porque é que me dóis? Porque é que me sinto tão insignificante e tão pouco suficiente? Porque é que não me queres?...
Quando a noite nos une, o que somos é mais que qualquer soma que consiga fazer e o segredo que nos envolve torna os meus labios mais doces que mel. Quando a escuridão sussurra o meu nome sei que não é mais que o teu desejo e respondo com um beijo suave e quente. E sou sorriso e sou paz e sou sol... Mas o dia chega e acordo deste sonho com um travo amargo a desilusão. Limpo-me de ti com lágrimas e volto a fechar-te dentro da minha caixa de veludo até à proxima vez.
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