Voltei porque mais uma vez não consigo dormir, porque mais uma vez o medo de tudo é maior que eu, porque mais uma vez sinto-me perdida. Estive afastada porque falar sobre o que sinto e o que não sinto era grande demais para caber dentro de mim, para ser transposto em palavras. Mas as insonias mostraram-me que se não partilhar não vou aguentar. Por isso aqui vai o meu rio de lagrimas que corre nas margens das minhas incertezas e das minhas cicatrizes.
Rodeada dos melhores amigos que a vida me podia ter dado escondi-me nas sombras das luzes de protagonista. Ri, cantei, dancei, saltei e pulei até ao segundo de lhes dizer adeus, que mais podia eu fazer???... Tudo está bem porque nada tem solução. Não sei crescer, não sou capaz de abandonar a criança que vive em mim e que está apavorada com a vida. Ela só me tem a mim, sempre foi assim, e eu tenho medo de admitir que só a tenho a ela.
E junto toda a minha força para a acalmar e a fazer parar de chorar convulsivamente., para a levantar do chão onde desespera e a arrastar ate à cama ou ao sofá. Agarro-me à almofada porque não temos nenhum outro tipo de contacto fisico, porque não o fazer seria aceitar a solidão. E o medo do que ainda está pra vir é demasiado grande para guardarmos numa caixa e colocarmos de lado, e as cicatrizes do passado são ainda demasiado profundas para deixarmos de as lamber, e as lagrimas turvam-nos a visão e não nos deixam ver com clareza o que se passa à nossa volta. Quero protege-la como nunca me protegeram a mim, quero ama-la incondicionalmente e enche-la com a esperança que ja não sei ter pra mim. Quero curá-la e assim curar-me a mim, mas a solidão não é uma doença, a dor na alma não passa com analgégicos, não podemos engessar uma alma com fracturas... Estou enrugada por dentro de tantas lagrimas que evito deixar transbordar. Estou momentaneamente cega com o negro do pessimismo. Estou doente com o desespero do querer mais e não conseguir ter.
Finalmente ela adormece por umas horas, as lagrimas secam nos olhos inchados, a dor amenisa no silencio dos pensamentos e volto a respirar, a deixar o coração bater, a fechar os olhos sem medo do escuro. Mas não dura muito. Na verdade, não dormimos para não sonharmos com o que nos stressa, não sentimos para não nos magoarmos quando não temos ninguém para nos tratar das feridas, não relaxamos para que nada nos volte a apanhar despercebidas, não criamos espectativas e incentivamos esperanças para que não nos consigam deitar abaixo. Mas assim só nos sobra a solidão e o desespero, uma casa vazia e inacabada, um coelho travesso e um futuro cheio de incertezas e possiveis desilusões.
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