sábado, 30 de março de 2013

Numa mesa de café


Hoje sento-me numa mesa de café enquanto espero por ti. Tiro a camisola para expor o máximo de pele à luz e calor do sol que, contra todas as expectativas, resolveu aparecer. Mato as saudades da sua caricia enquanto não chegas. A minha pele arrepia-se num momento de excitação inesperado e o meu corpo inspira profundamente ansiando por mais. Colher a colher como um gelado na vã expectativa de apagar o fogo criado pela minha paixão incontrolável pelo verão. Fecho os olhos e deixo o tempo passar, ate porque estou à tua espera. Mas não, não estou a fazer horas enquanto não chegas, estou a aproveitar cada segundo ate ao momento em que chegues como se se tratasse de um ato de traição do qual tens pleno conhecimento.

Quando dou por mim já não estou numa mesa de café, estou estendida numa espreguiçadeira numa praia que não reconheço fora dos meus sonhos. E já não são as outras pessoas a  falar que ouço mas sim o som de gaivotas ao ritmo do rebentar das ondas. Por segundos esqueço-me de esperar por ti concentrando todos os meus pensamentos em não acordar deste sonho paradisíaco. Desejo-o com toda a minha força e todo meu espirito da mesma forma que o meu corpo te deseja a ti.

A brisa beija-me a face rosada do calor e eu solto o mesmo sorriso que tenho guardado para o momento em que os meus olhos encontram os teus no meio da multidão. E sai aquele suspiro de quem quer mais e mais e um pouco mais. A música que mais ninguém ouve envolve o meu corpo até se apoderar dele e fazê-lo mexer-se sem precisar de autorização minha. Será que terias ciúmes ao ver o quanto esta amostra de verão me faz feliz? A verdade é que estou tão bem que nem me importa se terias ou não. Uma vez mais me esqueço de esperar por ti.

Surgem nuvens no céu e ameaçam terminar com esta minha relação de desejo incontrolável, reciproco e interminável. Não estou preparada ainda para dizer adeus quando sei que não tenho previsão para o voltar a ver e a senti-lo assim. Mas ele também não está preparado para se despedir de mim e recusa-se a afastar-se por causa de umas nuvens apenas. Há quanto tempo sonharia o sol comigo e com a forma como só ele me relaxa e me excita, me apaixona e me faz sonhar? Não sei. Não interessa. O que sei é que ele também deseja no mínimo tanto quanto eu o desejo a ele.

E lembro-me de ti e do que faço nesta mesa de café. O sol desaparece por detrás de nuvens como se tivesse ficado amuado com ciúmes teus. Ele sabe que também tu me aqueces o corpo e a alma, que me relaxas e me excitas, que me fazes sorrir e sonhar. Passo a esperar por ti a cada segundo que passa, olhando constantemente para a porta, aguardando pelo momento exato em que chegues. E mudo a banda sonora a pensar em ti como se isso ajudasse a que chegasses mais depressa. Mas tu não chegas. Sabes o quanto odeio esperar mas mesmo assim espero. Já se passou mais de hora e meia desde que cheguei a esta mesa de café e aqui continuo. Começo a convencer-me que não estou aqui à tua espera, estou aqui para desfrutar do sol. Ele está aqui apesar das previsões meteorológicas, talvez porque saiba o quanto me fazia falta e há quanto sonhava com ele. Infelizmente eu continuo a olhar para a porta e a esperar por ti.

Tiro uns minutos para pensar e concluo que tenho de aproveitar o sol. Por maior que seja o nosso amor platónico, não é grande o suficiente para travar o movimento de rotação da terra e de o impedir de desaparecer no horizonte. Tu chegarás eventualmente quando eu menos contar.

E tu chegaste. E eu parei de sonhar com o sol para voltar a sonhar contigo.

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